segunda-feira, 2 de abril de 2012

O DUVIDAR


  Nas nossas relações humanas tendemos a repetir erros e a protagonizar sempre situações parecidas, devido à cobranças, esperas e carências.  Uma das causadoras de grandes tumultos, magoas e feridas que não cicatrizam  é a certeza.
  Afinal, será possível mesmo ter certeza de algo? Será que devemos acreditar em cada palavra, atitude, carinho vindo dos mais desconhecidos até os que mais espaço tem em nossas vidas? Ser humano não é matemático, não é uma equação com resultado exato, correto e certeiro. Será sempre questionável, podendo ser analisado de diversos ângulos, julgado de diversas formas, mutável e surpreendente para os que esperam suas certezas vindas de alguém.
  Quando aprendemos a não esperar automaticamente passamos a duvidar.  Quando uma pessoa se coloca como amiga e acreditamos nisso, passamos a esperar certas atitudes características de um amigo, mas a partir do momento que não esperamos algo dessa amizade passamos a duvidar dela e com isso damos mais um passo em direção ao amadurecimento.
  O ser humano como todo o animal, nasceu para ser livre e certezas são as maiores prisões do homem. Você pode não perceber, mas quando tem certeza de algo relacionado a você ou a outra pessoa  está aprisionando-os e ninguém é feliz estando em uma prisão. Se o seu amor hoje te fala ‘’você é o amor da minha vida, eu te amo’’ saiba que naquele momento isso pode até ser inquestionável, mas se amanhã vocês terminarem não diga a ninguém ‘’ele (a) disse que me amava’’. Sim, disse, em outro tempo, num outro momento. Por que você quer aprisionar aquela pessoa em uma frase dita no passado? A partir do momento que eu digo que te amo estarei aprisionado a sempre te amar?
  Até aquela pessoa que faz tudo para você, amiga para toda hora, que é capaz de tirar a roupa do corpo para que você não passe frio, não tenha certeza que ela te ama, pois você não sabe e nunca saberá a verdadeira intenção de suas ações. Ela pode fazer por você simplesmente o que queria que tivessem feito por ela, e um dia que se sentir reconfortada pode deixar de estar ali ao seu lado em todos os momentos.
    Abra as janelas e portas da sua mente e a deixe sempre livre para mudanças e novidades, pois somos regidos pelo tempo e o tempo é contado por mudanças e onde há vida, há metamorfoses constantes e onde há metamorfoses constantes não há nenhuma certeza.
  

   

quarta-feira, 14 de março de 2012

O NÃO ESPERAR

A espera! A mãe dos mais deliciosos e dos mais amargos sabores. A espera por nascer e começar algo que só você poderá viver, a espera que nos machuca ao entregar para a terra alguém que amamos e não saber se e quando vamos reencontrar, a espera para o dia do aniversário, a espera para a hora do intervalo do colégio, a espera da primeira transa...

Somos, desde nossa infância, condicionados a esperar, mas será que isso está realmente certo? A vida seria feita de esperas ou de chegadas? Acredito que de chegadas, pois a chegada nos surpreende e a espera, quase sempre, nos frustra e eu prefiro ser surpreendido a ser frustrado. Começamos a elaborar mais isso e a perceber o quanto o esperar é errado lá pela adolescência, quando a vida vai criando situações que nos mostram que nem nossos pais farão tudo por nós e não corresponderão ao que ansiamos. E não o fazem não é por má vontade ou por não serem bons e sim porque não nos devem nada.
Ninguém deve nada a você! Nem aquela pessoa por quem você tirou a roupa do seu corpo e a entregou para se vestir, nem ela lhe deve algo. A atitude foi sua e não dela e a necessidade não condiz com recusas. Então sempre que oferecer algo a alguém que realmente esteja precisando saiba que a pessoa irá aceitar e que será incapaz de lhe devolver. Favor não é emprestar um dinheiro, que uma hora se paga em quantia igual ou maior, não é matemática.
Será que você realmente é capaz de fazer um favor ou realmente é algo que só os velhos conseguem verdadeiramente fazer? Já não tem saúde para gozar de muitas alegrias da vida, já traçaram seus caminhos profissionais, já esperam a morte como alguém próximo e não como um assunto intocado como em outros tempos, mas mesmo assim fazem coisas por outras pessoas.
Se você não consegue fazer o favor como um velho não deve se sentir culpado por isso, pois isso faz parte do caminho do nosso amadurecer, mas previna-se de frustrações. Se você não é capaz de fazer qualquer coisa sem um dia receber aquilo de volta, não a faça.
Só faça o que for uma relação de troca e que você ganhe algo também. Não é crime nenhum querer se privilegiar, estamos aqui para isso. Enquanto não fazemos mal para ninguém e fazemos o bem para nós mesmos, a razão é nossa.
É melhor ser egoísta do que viver com a mão estendida.

sábado, 3 de março de 2012

O ENTRAR E SAIR DO ARMÁRIO



   Quando somos crianças somos inteiramente livres. Livres de preconceitos, de ganâncias, de bons modos, de malícias, livres do armário.
   Conforme vamos crescendo nossos pais, avós, professores e outras pessoas que convivem conosco vão nos moldando, direcionando-nos e conforme o que nos é sinalizado, vamos adaptando-nos.
   Então, aquela criança que falava o que vinha a cabeça, que questionava tudo, que simplesmente saboreava a vida sem culpas  e preocupações passa a pensar antes de agir e a agir baseada no que os outros vão pensar.  É como se pegasse um passarinho que passou parte de sua vida livre numa floresta e o colocasse numa gaiola... E quem nos engaiola são nossos pais, por puro amor.
   Só quando nos deparamos com a verdadeira face do mundo, que não perdoa quem da um pequeno deslize, que entendemos para o que fomos preparados durante toda a infância e adolescência. 
   Durante esse processo é que começa uma das maiores lutas da vida, a de ’’entrar no armário’’. Armário esse que se mostra belo e organizado, cabível dentro do quarto, mas que por dentro está todo revirado, armário que nos protege e que serve de barreira para as tempestades do mundo, armário que nos sufoca a ponto de volta e meia nos lançarmos para fora com todos os bichos e monstros que vivem no nosso mundo individual. É nessas horas que sofremos as consequências da liberdade: o peso, o julgo, o olhar, a dor. Então, recolhemos tudo, respiramos bem fundo e voltamos para dentro do armário.
   Quantas milhares de vezes isso irá se repetir? Eu não sei... Penso que é um processo tão pessoal a ponto de ter pessoas que aparentemente nascem dentro do armário, embrulhadas numa bela caixa de presente, pois sentem com tanta naturalidade o fato de não poder ser natural. Outras já não, de cinco em cinco minutos despejam em cima de qualquer um tudo o que carregam. Esse blog irá falar sobre esse penoso caminho, sobre essas idas e  vindas dentro desse armário chamado vida. 
   Penso que só nos livramos dele quando somos velhos, pois velhos já viveram toda  a cartilha que se é cobrada viver, já pagaram os impostos, já trabalharam para a sociedade e como bônus ganham o direito de simplesmente serem o que são... Livres!